E a palhaça, o que é? Uma grande atriz, que faz rir e chorar

por Dib Carneiro Neto

Como cai bem o solo de uma palhaça – Sobre tomates, tamancos e tesouras – na grade de programação de um festival chamado Circos! Acerto total da curadoria. Andréa Macera, que encarna a clown Mafalda Mafalda desde 1997, representou no palco do festival todas as inúmeras mulheres que hoje já garantem seu espaço – com muito talento – na palhaçaria, uma arte historicamente tão preenchida por homens.

Foi lindo o festival escalar Andréa Macera e, sobretudo, com um solo que ela já faz há uma década, como contou à plateia ao final. Foi a primeira direção (também é co-roteirista), dez anos atrás, na carreira da premiada Rhena de Faria, do grupo Jogando no Quintal. É quase como renovar um clássico. A atração ganha, portanto, esse peso extra de resgate. O diálogo das criações recentes com o que se fazia há uma década.

Sobre tomates, tamancos e tesouras apoia-se em um humor macabro. Há indícios – a serem investigados pela polícia – de que uma palhaça, Mafalda Mafalda, após o fracasso de uma apresentação, usou uma tesoura para retalhar pedaços do público – mão, orelha, nariz. Com esse enredo, a apresentação vai e vem em flashbacks espertos, pertinentes, divertidos.

Não é, de forma alguma, um espetáculo obsessivamente preocupado em arrancar risada do público a cada minuto, a cada fala, a cada esquete ou cena. Não é. Ao contrário. O humor é calculado, ‘encaixado’ no roteiro sem pressa, sem ansiedade nenhuma, provando que no solo de uma palhaça também há espaço para a melancolia, a tristeza, o silêncio, a angústia do fracasso. Andréa Macera é atriz versátil e multitalentosa, conseguindo brilhar igualmente em momentos calmos, introspectivos. Há sequências bem intimistas, detalhistas, quase minimalistas em gestos e falas. Ela dá conta tanto quanto na hora da irreverência desbragada e assumida.

E, claro, a hora do humor explícito é uma delícia. Tem de tudo. Desde a mais pura e ingênua fisicalidade de picadeiro (tombos, quedas, tropeços) até a infalível graça tirada da escatologia – como quando Mafalda tira ‘caca’ do nariz e leva à boca, ou quando resgata do chão sua comida mastigada e torna a engolir. Passando até por esquetes típicos de personagens caindo de bêbados, que Andréa também sabe fazer muito bem. Riso garantido, misturado a uma ternura inevitável pela decadente figura.

Curioso observar como o espetáculo faz piada com o próprio figurino, o que considero até raro nos roteiros em geral. Há uma cena inteira em que Mafalda Mafalda apenas tenta trocar de vestido. Uma cena completinha só tirando graça disso. Muito legal. Depois, de quebra, ainda há um chiste que arremata a cena do vestido apertado, quando ela descobre que o tecido de sua “roupa de baile” é o mesmo da toalha de mesa. Bela sacada. Isso, eu diria, é que é humor feito com inteligência. O público percebe o ‘ciclo’ inteiro da construção de uma cena, que foi lentamente arquitetada para que terminasse na comparação do vestido com a toalha. Arremate perfeito.

Além de Mafalda Mafalda, Andréa Macera ainda faz outros personagens no solo. A meu ver, o que ela faz de melhor na caracterização é o delegado. Ele é divertidíssimo, no sotaque, nas tiradas, no porte físico, na bituca de cigarro no canto da boca, no bordão de berrar toda hora com um invisível assistente, de nome Moreira. Hilariante! Nas ágeis cenas de Mafalda com o delegado (são várias), a palhaça algemada sempre acaba com uma dúvida.

Em seu depoimento, ela nunca consegue se decidir entre duas coisas simples. Ele a confunde, ou ela se confunde? Todas as cenas terminam assim – e essa repetição é bem eficiente como recurso dramatúrgico, como retrato de uma personalidade humanamente complexa. As dúvidas deixando pistas de uma provável loucura.

A cenografia é igualmente eficiente, com adereços de impacto, objetos que ajudam a contar a história e aumentar seu potencial macabro. Gosto muito da simplicidade tocante da cena do metrô (ou trem?). Quando ela vai viajar, um cabideiro (ou arara de roupas) entra em cena. A intérprete apenas o chacoalha sincopadamente e, pronto, já acreditamos que ela está viajando na companhia de um monte de gente (os ternos pendurados na arara). Cena muito bem feita.

Ao final, na hora dos efusivos aplausos, com a plateia de pé, Andréa Macera, muito emotiva, não resistiu e se debulhou em lágrimas, no palco do Sesc Ipiranga. Uma palhaça chorando copiosamente aos olhos de seu público. Que cena rara. Que cena linda. A grandalhona caricata, desbocada e debochada, ‘despe-se’, aos olhos de todos, fragilizada, agradecida. Livra-se de sua última camada, de sua última defesa, completando o ciclo de entrega absoluta ao seu ofício. Um dos momentos mais bonitos desta quinta edição do Circos – Festival Internacional Sesc de Circo.

Conteúdo relacionado
Ordinários bufões, poetas e durões

Ordinário: comum; que se repete; de pouca ou má qualidade; de fraco valor moral ou intelectual. Some estes conceitos a muitas risadas, a um enredo que brinca com o antigo e o novo, a detalhes sinérgicos de trilha sonora e iluminação e, ainda, a uma atuação inigualável de personagens bufões, poetas e durões.

Compartilhe

Programação ao Vivo | ago - set 2021