É preciso ofender para ser engraçado? A peça Ordinários mostra que não

por Michele Rolim

A sociedade contemporânea tem servido de palco para inúmeros debates e embates protagonizados pelo politicamente correto versus liberdade de expressão. Embate que tem nocauteado peças de humor, adentrando a palhaçaria e deixando muitas vezes uma plateia com sorrisos amarelos, constrangidos.

Pois mesmo dentro de “templos” de risos fáceis, há uma necessidade urgente de checagem de repertório: uma piada de 10 anos atrás não é mais cabível e nem graça encontraria.

Piadas sobre grupos minorizados, além de refletirem diferenças históricas, colaboram na perpetuação de injustiças, pois cria um ambiente de aceitação da discriminação.

Reafirmando a importância da palhaçaria, com mais de 20 anos ininterruptos de trajetória, o La Mínima Circo e Teatro apresenta o espetáculo Ordinários. Com três palhaços em cena (Fernando Paz, Fernando Sampaio e Filipe Bregantim), eles “sacaneiam” o agressor e não a vítima, no caso “os homens que fazem a guerra”.

O roteiro, assinado pelo La Mínima e também por Newton Moreno e Alvaro Assad (diretor do espetáculo), não adere a um discurso simplório, por exemplo: “a culpa da guerra é do sistema capitalista”, reconhecendo que há múltiplos fatores os quais contribuem para a construção de um contexto social.

Na peça, três soldados são convocados para uma missão complicada: invadir o território inimigo para resgatar o seu superior. Ao final da jornada, descobre-se que o major (o superior) havia aderido à tropa inimiga, convidando para a reflexão de que a mão que aperta o gatilho é tão importante quanto a mão que faz a arma.

O jogo de cena entre o elenco revela alguns tipos de palhaços: Augusto, tipo mais conhecido no Brasil, representa a liberdade e a anarquia, de certa forma, o mundo infantil. É desajeitado e inoportuno, mas acaba por conquistar a plateia com sua simpatia e brincadeiras. O Branco, inverso de Augusto, acha-se esperto e é autoritário. Entre Augusto e Branco se estabelece um conflito entre a rebeldia e a autoridade. O terceiro elemento na cena é aquele que não toma partido de nenhum dos lados e acaba apanhando de ambos.

No entanto, no espetáculo, há uma liberdade do trio de artistas para transitarem entre os papéis, apesar de o elenco se valer de tais tipos cômicos para a construção do riso.

Ordinários é inspirado na experiência da companhia com a ONG Palhaços sem Fronteiras. Sua principal atuação é a realização de espetáculos de palhaçaria e artes circenses destinadas a campos de refugiados, abrigos, ocupações, alojamentos, transcendendo barreiras culturais, de idioma, políticas, sociais e religiosas.

Fernando Sampaio conheceu o clown catalão Tortell Poltrona, fundador da entidade, em 1996. Nos últimos anos, o La Mínima tem participado de ações do braço brasileiro dos Palhaços Sem Fronteiras, dirigido por Aline Moreno. O Brasil foi o primeiro país da América Latina a fazer parte da entidade internacional, desde maio de 2016.

Além dessas experiências, combinando teatro e circo, como é de praxe no trabalho da companhia fundada em 1997 por Domingos Montagner (1962-2016) e Fernando Sampaio, o momento político da estreia do espetáculo foi fundamental: novembro de 2018, em pleno clima de conflito das eleições presidenciais no Brasil.

Na montagem, por exemplo, há uma crítica ferrenha à política do armamento, como no trecho no qual um dos soldados lê uma carta: “Sua sobrinha pediu de aniversário de 10 anos uma arma de verdade”.

Ordinários coloca o dedo na ferida com muito humor “aos homens responsáveis pelos conflitos e pelas guerras”. E ao final, lança uma pergunta aos espectadores: “Como fugir da guerra uma vez que já deixaram que as minas fossem instaladas?”. Pergunta essa que nós, os brasileiros, agora mais do que nunca, devemos fazer.

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Ordinários do La Mínima nos leva ao campo de batalha. Durante os 70 minutos de espetáculo, somos cúmplices das inseguranças, incertezas e refúgios de sobrevivência de três soldados na guerra.

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