Viagem ao país da infância

Welington Andrade

“Um touro, que vivia nas montanhas, nunca tinha visto o homem. Mas sempre ouvia dizer por todos os animais que era ele o animal mais valente do mundo. Tanto ouviu dizer isto que, um dia, se resolveu a ir procurar o homem para saber se tal dito era verdadeiro. (…)”.

Luis da Camara Cascudo, Contos tradicionais do Brasil.

HumAnimal, espetáculo da companhia Circo da Silva recomendado à faixa etária que compreende crianças de sete meses a oito anos de idade, é de uma simplicidade a toda prova. Nele, misturam-se elementos básicos de palhaçaria, dança e teatro, executados ao som de uma simpática trilha sonora instrumental que logo instaura em cena uma atmosfera de bem-vinda ludicidade. A mesma, a rigor, obtida por Fernanda Marques, Isabel Abrantes e Paula Preiss (também diretora do trabalho), que, manipulando figurinos multifuncionais, encarnam em cena joaninhas, tartarugas, araras, caracóis, sapos, galinhas, elefantes, patos, touros, cavalos e ainda outros animais reais, ou mesmo seres imaginários como as sereias, cujos comportamentos apresentados de forma estilizada despertam não somente a atenção e a curiosidade das crianças menores como também a empatia dos adultos e do público infantil um pouco mais velho.

O primeiro ponto positivo a ser destacado nessa encenação singular é o estímulo à imaginação que ela propõe às crianças. Imaginação essa vinculada à experiência de ir ao teatro. Em Infância e história: destruição da experiência e origem da história, o filósofo italiano Giorgio Agamben adverte, como glosa dos conceitos de fantasia e experiência: “Nada pode dar ideia da dimensão da mudança ocorrida no significado da experiência como a reviravolta que ela produz no estatuto da imaginação. Dado que a imaginação, hoje eliminada do conhecimento como sendo ‘irreal”, era para a antiguidade o medium por excelência do conhecimento. […] Longe de ser algo irreal, o mundus imaginabilis tem a sua plena realidade entre o mundus sensibilis e o mundus intellegibilis, e é, aliás, a condição de sua comunicação, ou seja, do conhecimento”. Passada a fase inicial da celebração acrítica do mundo das realidades virtuais proposto pela cultura digital que nos cerca, e em boa medida nos aprisiona, seria o caso de considerar muito apropriada a criação de um trabalho que convida à imaginação pura e simples. Sem que seja necessário fazer uso de toda sorte de aparatos tecnológicos e bugigangas tecnocráticas. Os corpos das intérpretes, seus figurinos, os poucos adereços que elas manipulam, a música e a iluminação tratam de, artesanalmente, dar conta do recado.

O segundo aspecto positivo diz respeito à ludicidade simples, direta, sem floreios alcançada pela proposta. A função do jogo, nos lembra Johan Huizinga, em Homo ludens, é definida pelos dois aspectos fundamentais encontrados nele, o da luta e o da representação. E Humanimal investe basicamente no caráter representativo do jogo de imaginação (sempre ela) estabelecido com as crianças. “O pavão e o peru limitam-se a mostrar às fêmeas o esplendor de sua plumagem, mas aqui o aspecto essencial é a exibição de um fenômeno invulgar destinado a provocar nossa admiração”, afirma o historiador holandês, para logo em seguida declarar (de modo que soa algo dirigido especialmente a nós): “Se a ave acompanha essa exibição com alguns passos de dança, passamos a ter um espetáculo, uma passagem da realidade vulgar para um plano mais elevado. Nada sabemos daquilo que o animal sente durante esses atos, mas sabemos que as exibições das crianças mostram, desde a mais tenra infância, um alto grau de imaginação. A criança representa alguma coisa diferente, ou mais bela, ou mais nobre, ou mais perigosa do que habitualmente é. Finge ser um príncipe, um papai, uma bruxa malvada ou um tigre”. E eis que aqui chegamos à terceira qualidade do trabalho, sustentada pela singela dramaturgia que investe na contínua metamorfose dos animais exibidos em cena.

Na sessão do último sábado, dia 17 de junho, crianças e adultos sentiam-se transportados de prazer, ao testemunharem cada transformação, procurando ainda adivinhar, enquanto ela ocorria, a forma final a ser representada. Desejando sair de si mesmas – podemos pensar novamente com Huizinga –, os meninos e as meninas na plateia do Teatro do Sesc Ipiranga eram convidados a acreditar, com ludicidade e imaginação, que o trio de atrizes encarnavam este ou aquele bicho, sem perderem de todo o sentido da “realidade habitual”.

Terminado o espetáculo, o trio de intérpretes ainda brindou a audiência com uma divertida descida à plateia, sob a forma de macacos muito ágeis e imprevisíveis. Foi o momento de a crítica abandonar o teatro. Porque já era impossível distinguir quem era homem, quem era animal.