Um ensaio sobre a suspensão

Alluana Ribeiro

Mãos calejadas, abdômen tonificado, asas largas, pés fora do chão. Suspenso, o acrobata aéreo treina seu corpo e espírito. Seja em um trapézio, lira ou corda, a sua bacia precisa levantar, girar e aterrissar em segurança. Para isso ele pratica, insiste, resiste à pressão. Treina para desenvolver as potências de seu corpo,  “a capacidade de se afetar corpo” [1] e agir. Em um espaço de contornos ar-riscados, ele realiza figuras que desfiguram seu próprio corpo.

Desde a criação do circo moderno no século XVIII, os acrobatas aéreos encenam a suspensão de seus corpos. Mesmo com as mudanças pelas quais o circo passou até hoje, aproximando-se de outras artes, a suspensão permanece sendo sua principal característica.

A escrita deste ensaio foi movida pelo desejo de refletir sobre este corpo suspenso que resiste às tentativas de conceitualização, mas que hoje está muito longe do puro divertimento, e se apresenta, em seu hibridismo, aberto para uma série de questionamentos. Mesmo que ainda seja difícil de definir e que se preste a interpretações contraditórias, ele é concretamente moldado, todos os dias, pelos seus artistas. Ele informa sobre seus gestos e seu estar no mundo. É a sua experiência que, por um instante, o funda[2]. Seria a suspensão uma propriedade do corpo circense que, atravessando o tempo, poderia contribuir para uma definição do que seria um “corpo circense contemporâneo”?

O risco no circo pode se referir às situações experimentadas durante o treinamento e apresentações, mas também às que o circense enfrenta no seu dia a dia. O risco estabelece uma relação própria do circense com seu estar no mundo. Ele é : a) físico – proveniente de seu embate com a matéria,   b) político-social – ligado à relação instável que estabelece com a sociedade e suas instituições , c) afetivo – consequência subjectiva do contato com experiências arriscadas, d) de linguagem ou estético – traço de uma composição que lhe é própria. Afinal, é impossível dissociar a prática do circo da própria vida. Não há separação. “A exposição ao risco, se induz ao perigo, engaja os mecanismos consecutivos a um colocar-se em desequilíbrio a si próprio” [3].

O artista aéreo dedica-se à suspensão com uma determinação absoluta. Articulação por articulação, músculo por músculo, ele prepara seu corpo. Presta-lhe homenagem. É frequente vê-lo nas salas de aula, ensaios, camarins, isolado, cumprindo um pequeno ritual. Antes de shows ou treinamentos que oferecem riscos, sussurra uma espécie de prece na qual pede a seu próprio corpo para que fique junto dele. Não há Deus para protegê-lo nem condená-lo. Há apenas espaços divinos à sua volta dos quais ele toma posse. Seu universo metafísico não ultrapassa o corpo. Ele mesmo se experimenta enquanto infinito.

A figura no circo (também como conhecida como truque ou proeza) é um acontecimento que requer um engajamento total do corpo na experiência. Realizada na redoma sensorial extraordinária[4] proposta pelo espaço suspenso, ela é infinitamente breve e está ligada a uma superação de si. Esteja suspenso por cordas, por um tecido, um trapézio, ou pela mão de um parceiro, o acrobata aéreo experimenta na pele uma realidade instável na qual as referências são outras e os apoios, restritos ; ele então adapta-se a essa realidade através da realização de (des)figuras. É justamente nesse espaço liso que ele se refaz; neste não-lugar que não se esgota e não se conclui.

A suspensão, no caso dos circenses, assim como no caso de Artaud, não é um vazio infinito, um descompromisso. Ela é repleta de acontecimentos de ordem corporal e afetiva. Para tanto é preciso engajar- se, liberar o corpo, “os órgãos”, segundo Artaud, de um condicionamento que lhes foi imposto.“Eu me faço suspenso”, dizia, “sem inclinação, neutro, preso em busca do equilíbrio das boas e das más solicitações” [5]. A suspensão abre uma lacuna que não é necessariamente positivada, preenchida. Ela sustenta o não-lugar como possibilidade de existência. Mas este vazio com o qual o circense trabalha não é o nada. É antes uma virtualidade que contém em si possibilidades ilimitadas de se fazer corpo e discurso.

De alguma forma a sublimidade do acrobata aéreo, seu caráter de anjo, como define Fabienne Arvers, é fruto de um intenso engajamento físico. Meta físico. Através da física eleva-se sobre o risco de um vazio. Trabalha, na carne, suas possibilidades de suspensão. Trata-se de uma metafísica da carne ou uma física primeira que opera no corpo do circense e que o leva a ir sempre mais longe numa vertigem que nada pode deter. Nesse sentido podemos partilhar da ideia de Philippe Goudard: o corpo do artista circense é sacrificado pelo desejo de elevar-se.

Bibliografia:

ARTAUD, Antonin. Oeuvres. Quarto. Paris: Gallimard, 2004.
GOUDARD, Philippe. Arts du cirque, Arts du risque : instabilité et déséquilibre dans et hors la piste. Montpellier: ANRT, 2005.
GUY, Jean-Michel. (dir). Avant-Garde, Cirque! Les arts de la piste en révolution. Paris : Éditons Autrement, Collections mutations, no 209.
PIRES, Ericson. Cidade Ocupada. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007.
VEIGA, Guilherme. Ritual, risco e arte circense. O homem em situações-limite. Brasília: Editora UNB, 2009.

[1] PIRES, Ericson. Cidade Ocupada. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2007, p.11.
[2] GUY, Jean-Michel. (dir). Avant-Garde, Cirque! Les arts de la piste en révolution. Paris : Éditons Autrement, Collections mutations, no 209, 2001.
[3] GOUDARD, Philippe. Arts du cirque, Arts du risque : instabilité et déséquilibre dans et hors la piste. Montpellier: ANRT, 2005, p. 280.
[4] Este conceito foi desenvolvido por Guilherme Veiga no livro Ritual, risco e arte circense. O homem em situações-limite. Brasília: Editora UNB, 2009.
[5] ARTAUD, Antonin. Oeuvres. Quarto. Paris: Gallimard, 2004, p. 125. (Tradução livre)

Alluana Ribeiro Barcellos Borges
Artista de circo, possui graduação em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2007), é Mestre em Estudos de Literatura e Cultura na mesma instituição e suas pesquisas atuais são sobre o corpo e as artes do circo contemporâneas a partir de uma releitura da obra do escritor Antonin Artaud. Alluana é co-fundadora e artista na Cia Sôlta (FR/BR) desde 2012.