Um atletismo afetivo

Welington Andrade

“A ideia poética que se depreende dessa operação do movimento nas linhas é a hipótese de um ser vasto, imenso, complexo, mas eurrítmico, de um animal repleto de gênio, sofrendo e suspirando todos os suspiros e todas as ambições humanas”.

Charles Baudelaire, Diários íntimos.

Íntimo, primeiro espetáculo adulto da companhia LaMala, é um trabalho de austera simplicidade e despojada beleza. Nele os acrobatas Carlos Cosmai e Marina Bombachini, dirigidos por Bruno Rudolf, exibem uma série de habilidades na técnica de mão a mão e em acrobacias de solo, acompanhados por uma trilha sonora executada ao vivo pelo pianista Rodrigo Zanettini, cujas notas musicais brindam os movimentos corporais da dupla com uma atmosfera ora de comedido enlevo, ora de bem aquilatado bom humor. Trata-se de um ótimo exemplo de como números de circo podem se converter em experiências cênicas vigorosas, bastando para isso que os criadores envolvidos saibam inserir o virtuosismo, a audácia e a perícia técnica em um contexto dramatúrgico maior, tangido por sensibilidade artística e inventividade estética.

Tudo em Íntimo oscila entre dois pares de registros semânticos ligados entre si: o primeiro aponta para a ideia de que em cena está uma dupla que vai se convertendo pouco a pouco em um casal; o segundo explora uma rica miríade de significados que sustenta a ação desse par, procurando preencher o intervalo que vai da noção de interioridade ao sentido de intimidade, como prevê mesmo a etimologia da língua latina, de onde tais palavras se originaram. No latim, íntimo é o superlativo do adjetivo interior. Nada mais adequado à crítica de um espetáculo de circo do que o fato de algumas palavras conspirarem a favor dela, em ato de vertiginoso malabarismo semiótico.

Pois bem, como uma dupla, Carlos Cosmai e Marina Bombachini brincam de estar em cena, aquecendo seus corpos e instaurando entre si pouco a pouco um relacionamento fluido e dinâmico; lúdico e consequente. Depois de algumas séries de exercícios cuja execução é um tanto quanto opaca para leigos (sedentos daquela velha e confortável espetaculosidade que envolve o imaginário do circo, a bem da verdade), ambos encarnam o típico par de acrobatas na qual o gênero esculpe as habilidades: ele, o homem, dá o devido suporte no solo para que ela, a mulher, evolua céu acima sobre as mãos, braços e ombros dele. Ele, a força; ela, a leveza; ambos, em constante interação dialética para que se atinja o bem supremo da acrobacia: o equilíbrio. Acrobata em grego significa “aquele que anda na ponta dos pés”, uma vez que o mesmo elemento helênico de composição, akro, implica a ideia de extremidade. Carlos e Marina esbanjam equilíbrio dos pés à cabeça e fazem seus corpos evoluírem em cena, paulatinamente – da situação inicial em que um funciona como partner do outro à extremidade de formarem um casal. Que privam do bem supremo do equilíbrio físico e afetivo: a intimidade.

Curiosamente, nas ações circenses que exigem habilidade física, tal como no esporte, quase tudo o que se veicula em cena são sentidos exteriores, uma vez que o corpo do artista constitui a própria finalidade do ato no qual ele está envolvido, sem mediações de outra ordem. Em Íntimo, entretanto, ocorre uma operação de natureza diversa, dada a delicada feitura dramatúrgica do espetáculo, que converte sentido exterior em sentido interior pela via da qualidade da intimidade alcançada entre o casal de protagonistas em cena. “O exterior e o interior são ambos íntimos; estão sempre prontos a inverter-se, a trocar sua hostilidade. Se há uma superfície-limite entre tal interior e tal exterior, essa superfície é dolorosa dos dois lados. […] O espaço íntimo perde toda clareza. O espaço exterior perde o seu vazio. […] Nesse drama da geometria íntima, onde devemos habitar?”, indaga-se Gaston Bachelard, em A poética do espaço, resolvendo de certa maneira para nós o contraste expressivo que se dá na mais recente criação da Cia LaMala.

É por meio da elasticidade entre o externo e o interno que a intimidade, essa espécie de “abstração realizada”, habita a cena – quando Carlos Cosmai e Marina Bombachini, com os olhos voltados para si mesmos, interrogam as possibilidades de atuação de um casal de acrobatas sobre um imenso horizonte de um centro de picadeiro, disposto em escala abstraída, reduzida, sintética, ela também íntima.