Que circo é esse?

Raquel Rache de Andrade

E a geografia, com certeza, me ajudou muito. A primeira vista, eu conseguia diferenciar a China do Arizona. Isso é muito util, quando estamos perdidos na noite.

Essa citação do Pequeno Principe de Antoine de Saint-Exupéry nos leva à refletir sobre a questão da fronteira, do limite.

Entidade fisica, abstrata ou juridica, a fronteira define um espaço de espessura variável que separa dois territórios, que constitui uma espécie de horizonte, de limite. Se a noção da fronteira tem, à primeira vista, um significado político, ela também pede à imaginação que olhe mais longe que sua linha de demarcação, o que nos leva imediatamente à pensar em formas de transgressão. Assim, como limite, ela desperta ao mesmo tempo a proibição do que ela criou.

« Na arte, nenhuma fronteira. » citação de Victor Hugo. Na arte precisamos, necessitamos ou queremos questionar barreiras, limites, fronteiras, para poder inventar, criar ou simplesmente investigar o que existe do outro lado do espelho, do outro ponto de vista.

Essa abertura é simples quando somos crianças, as fronteiras e limites vão sendo dadas e aprendidas com o passar do tempo. Aliàs, muitas vezes no momento de criação de um espetaculo de circo , o artista busca esse estado infantil, de abertura ao outro, ao mundo, de liberação de fronteiras, de desconhecimento de limites, pois é justamente na diluição das fronteiras, dos limites, que a mistura e o possivel existem.E quem sabe o impossivel ? Ao mesmo tempo o artista se depara com uma contradição enorme, pois deve adicionar ao momento interno caotico (liberação de limites), o fato de ter que criar um espetaculo com um tempo preciso e um publico preciso(limites).

O que leva o artista de circo muitas vezes à experimentação do caos. E essa experiência pode ser fértil. A ordem pode nascer do caos, da confusão, da desordem, e se o caos pode incomodar regras pré estabelecidas numa sociedade, é através do caos que a dialética da arte pode ser criativa . Essa é uma das bases da criação e da evolução criativa.

As vezes de forma caotica, o circo inclui tudo que é diferente, tudo que pode criar um interesse visual, auditivo, olfativo. Por isso o circo deu forma à expresssões populares : « que circo é esse ? » « isso aqui ta parecendo um circo ! ».

Mas o que é interessante no circo é que ele é a antitese dele mesmo, pois mesmo se temos a impressão de que a realização é caotica, tudo acontece com muita precisão e muito ensaio.

Reais, imaginarias, flutuantes , intimas e politicas, as fronteiras unem alguns e separam outros. Com a chegada da internet o mundo ficou mais complexo nas noções de fronteiras . Nossas referências foram mudadas : criaram-se transversalidades que nos obrigam a repensar nossa relação ao outro. E nas artes circenses temos que rever também essa relação intrinseca e interativa entre artista-criador-autor e publico.

Podemos observar que é na escrita de um espetaculo de circo que o imaginario do autor-artista pode realmente se desprender e abrir caminhos, e nesse aspecto, o circo contemporâneo vive seus primeiros passos, de forma dinâmica e empirica. Hoje podemos dizer que existem varias formas de escrever o circo. Podemos afirmar também que existem varios circos diferentes, uma diversidade enorme num panorama que tem como unica fronteira o mundo. Ainda não existem espetaculos de circo na Lua, mas quem sabe ? Podemos imaginar num futuro proximo um circo flutuante na Lua ou no espaço sideral…

Bibliografia :

-Œuvres complètes/ Tas de Pierres de Victor Hugo- editions rencontre volume 34(1968)
-Petit Prince de Antoine Saint- Exupéry / édition Gallimard Jeunesse- Folio Junior n° 100
-Archaos/ de Martine Maleval- Actes Sud- papiers/CNAC- 2010
-IN VITRO de  Guy Carrara- éditions L’Entretemps- Montpellier- 2009

Raquel Rache de Andrade
Diretora do Polo de Circo de Marseille e da Bienal de Circo de Marseille