Pedagogia e método do palhaço

Kil Abreu

Em Fritos e refritos, os argentinos Chacovachi e Maku Fanchulini experimentam uma ética da desordem

Comparações tendem a ser redutoras, mas aqui vai uma cuja intenção é tentar dar conta de um trabalho realmente incrível: o palhaço argentino Chacovachi parece um irmão mais novo de Dario Fo, só que talvez mais malcriado, e dono de um discurso no qual a política está mais ao fundo da arte da palhaçaria. Mas está lá, e igualmente potente. Junto com sua jovem parceira de cena, Maku Fanchulini, apresenta um espetáculo desconcertante em que política, lances existenciais e a crítica ferina aos modos ordinários da vida aparecem amalgamados em uma quase aula sobre o ofício.

O ponto de vista é bem determinado:  não abandona as gags e entradas deixadas pela tradição, mas as reveste com um gosto apaixonado pelo discurso cheio de posições e, no entanto, não militante (ou ao menos não tipicamente militante); pela reflexão crítica e quase filosófica em torno dos atos cotidianos do cidadão médio, sem cair no moralismo ou na carolice; pela desobediência tomada como princípio da ação que, para afirmar-se, procura sempre testar o seu contrário. Ou seja, é uma poética com muito interesse em uma ética particular: aquela que se inventa na rebeldia comum à palhaçaria, mas em uma forma nada, nada ingênua. Um palhaço, pode-se dizer, dialético, movido por uma inteligência afirmativa, mas não pedante.

É notável que, mesmo aportada em todos esses fundamentos, trata-se de uma cena francamente popular, direta e capaz de mobilizar jogos cômicos em que tudo se aproveita com efeito – da interação permanente e sustentada com a plateia às reviravoltas do discurso. Em uma retórica cheia de deliberadas armadilhas, o espetáculo segue testando nossas disposições para o risco sempre renovado que é tomar decisões. E olha a possibilidade do nosso fracasso, da nossa falha de julgamento, com interesse maior que pela resposta ‘acertada’. Como anunciado no início da representação, uma das tarefas da dupla, habilmente realizada, é descobrir o palhaço em cada um dos que estão confortavelmente sentados à plateia, esperando o show começar.  O método usado mistura exposição (inevitável), mas também uma boa dose de ternura, de apreço pelo demasiadamente humano que de repente já está ali, a dividir a cena e a ser perguntado sobre as dores, delicadezas e alegrias do mundo, pelo nobre e pelo ridículo da vida.

Aqui a palhaçada também é palhaçaria. A distinção foi feita pelo professor Mario Bolognesi (em “Uns fazem palhaçada, outros palhaçaria”, texto publicado no catálogo desta edição do festival Circos) para indicar vertentes da arte do palhaço: uma mais espontânea e interessada no efeito imediato do riso; outra mais interessada em reflexões ou dramaturgias que levam a ele. Embora não se deva separar rigorosamente, pode-se dizer que as entradas de Maku Fanchulini tendem à palhaçada, seja na interação com a plateia (que vai ao palco), seja na apresentação mais recortada das gags e números. Em todo caso são passagens quase sempre auto-irônicas, em que os efeitos e truques do circo são postos a claro, como na sequência em que toda a mise en scène para uma cena de equilibrismo (o ovo na testa) revela a ajuda inesperada de um pouco de cola, pondo abaixo a ilusão de desempenho (mas na dialética do espetáculo, ao final, a mesma Fanchulini faz um número “verdadeiro”, e muito bom, na mesma linha).

Para o Chacovachi ficam tanto a palhaçada quanto a palhaçaria, no sentido da condução dos jogos físicos e retóricos que fazem a narrativa do espetáculo. Como na ótima cena de um prometido milagre em que um balão, diz ele, não será furado por uma agulha afiada, e isso se deve não a uma técnica de ilusionismo e sim ao efeito de fé vindo da plateia. Vestido de túnica e em caricatura explícita dos cultos que colocam a crença adiante da razão, em meio a cânticos e tais, ele desconstrói a expectativa fazendo o balão furar na primeira tentativa. Em seguida, porém, faz o truque funcionar perfeitamente. Como se disse, a politização está lá, mas ganha mais efeito e amplifica o sentido do riso porque nunca é moralizante.

É nessa medida das idas e voltas de ações e pensamentos que o espetáculo se dá à plateia, ao tempo em que a assimila em uma contagiante autocrítica sessão de risos (e aí já nos incluímos, todos). Uma pedagogia do palhaço e uma ética da desordem que são bem mais que a criação de ações para se chegar a um cômico genérico. É que a iconoclastia tem endereço: é a rebeldia de quem reclama o sagrado espaço da liberdade e da autenticidade em um mundo cada vez mais pautado pelo cálculo da imagem sem falhas, promissora de sucesso. O trabalho dos cômicos argentinos é mostrar os pés de barro dessa nossa fantasia. Com a autonomia de pensamento e o repertório maduro do ofício que caracterizam os grandes artistas.