O circo como espaço de alteridade

Marcos Francisco Nery Ferreira

O circo é uma arte do corpo que coloca em evidência o potencial técnico e poético do artista. São estas duas potencialidades que se articulam no processo de composição cênica de um número ou espetáculo de circo. Elas não podem trabalhar de maneiras independentes, caso contrário o material técnico não tem função poética e não serve à cena. Por estes motivos, as experiências vividas por cada artista durante o processo de formação é relevante para revelar uma poética do próprio circense a partir do seu corpo, capaz de uma reflexão criativa.

Andrieu (2012) afirma a prática corporal é resultado das ações executas pelo artista e que transformam o seu próprio corpo a partir do fornecimento de uma experiência. A repetição contínua desta última modifica progressivamente a identidade e revela novos schémas corporais[1]. Desta maneira, “a experiência corporal é uma percepção biosubjetiva” (Ibid., p. 14), e é neste lugar que revela-se a poética do intérprete. A partir da sua cultura de formação e experiências que foram incorporadas por seu corpo, o artista é capaz de criar e recriar outros schémas corporais para torna-se outro(s).

Este processo acontece hoje em dia em um mundo onde aparecem “sujeitos de desempenho e produção” (HAN, 2015, p. 23) e onde as práticas artísticas tendem cada vez mais a eliminar suas fronteiras. A cena contemporânea “desterritorializa-se” e as formas artísticas perdem suas identidades quando entram em relação com outras linguagens. Por outro lado, o espetáculo circense é híbrido desde sua origem e está em contínua transformação. Atualmente, verifica-se uma disparidade de espetáculos e de processos de criação em circo que revelam novas formas estéticas e poéticas.

A geração de artistas de circo dos anos 2000 é marcada por uma heterogeneidade de experiências e práticas pedagógicas. Isto é resultado da mobilidade destes sujeitos em busca de uma formação nas artes circenses que foi facilitada sobretudo pelo surgimento das escolas circo pelo mundo. De maneira genérica, estas escolas apresentam um programa pedagógico cujo objetivo é a formação de artistas generalistas ou especialistas em diálogo com a pluralidade da cena circense contemporânea.

Cada escola visa a formação de um tipo de artista que ela acredita corresponder às demandas do contexto político, econômico e cultural da atualidade. Tomando como exemplo o modelo de artista circense formado pela École Nationale de Cirque de Montréal, observa-se, de forma geral, a formação de um artista entre 20 e 24 anos, polivalente e com um alto nível técnico; entretanto, são artistas enquadrados em um tipo de normas de produção que visa prioritariamente a inserção em grandes companhias canadenses. Isso produz, portanto, uma formatação de um modelo de artista para um determinado contexto de criação/produção onde o desempenho prevalece sobre a poética.

O interessante ocorre quando tais artistas não se inserem somente neste meio e buscam outros tipos de mobilidade: por exemplo, retornando ao seu país de origem com seu conjunto de saberes incorporados a partir da sua formação artística e, ao mesmo tempo, entrando em relação com outros saberes, práticas e linguagens. Neste sentido, estabelecem-se novas redes de processos de criação, contaminações de linguagens e práticas e determinam-se novas relações de trabalho nas artes circenses, portanto, “é o conjunto do sistema socioeconômico do circo que conheceu notáveis mudanças” (FAGOT, 2010, p. 22)

No que se refere aos processos criativos que surgem neste contexto, eles se afirmam como lugar de encontros e intercâmbios de experiências, onde tudo se mistura revelando processos de alteridades valiosos. A práxis é o mais importante para o artista e, assim, cada processo de criação expõe o jogo de tensões entre as afinidades e as diferenças que surgem da relação dos elementos de composição. Neste sentido, o corpo do artista pode incorporar o outro, como “condição de passagem de um mondo possível para outro” (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 119). Isto permite o surgimento de diversas formas de qualidades expressivas características destes encontros.

A cena contemporânea revela-se, assim, como o jogo de relações entre diversas perspectivas a partir destes encontros e da relação técnica-poética de cada artista. A noção de centro se esfacela e abre espaço para estas múltiplas perspectivas. Por outro lado, as fronteiras são cada vez mais porosas e, portanto, novas linguagens brotam por meio destes espaços de alteridade. Emerge, então, a noção do estar entre: práticas, culturas, línguas, linguagens, procedimentos, princípios, etc. que remete tanto às distâncias entre estes elementos quanto às diferenças qualitativas. No circo, o corpo é o lugar que concentra estas tensões em relação. Este corpo que deve ser visto como “sujeito outro, como uma figura de Outrem que, antes de ser sujeito ou objeto, é a expressão de um mundo possível” (Ibid., p. 117).

Referências:

ANDRIEU, Bernard. La contorsion comme immersion expérientielle: créer un nouveau schéma corporel. In: Momento, v. 6. Paris: Hors le murs, 2012.
FAGOT, Sylvain. Le cirque: entre culture du corps et culture du risque. Paris: L’Harmattan, 2010.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. O nativo relativo. Mana, Rio de Janeiro, v. 8, n.1, p. 113-148, 2002. Disponível em: . Acesso: 01  de maio de 2016.

[1] Segundo Bernard Andrieu (2012), os schéma corporal é o que engaja a motricidade em um certo modo de ação cuja convenção é a expressão cotidiana. A partir da incorporação de técnicas do corpo, o schéma corporal produz inconscientemente os gestos para agir automaticamente em um saber “incarnado”, imediatamente disponível e adaptado ao exercício habitual do corpo.

Marcos Francisco Nery Ferreira
É intérprete e pesquisador brasileiro estudou na Escola Nacional de Circo e aperfeiçoou-se em Montreal – Canadá, é formado em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia, Mestre em Artes do Espetáculo pela Unesp e Doutorando em Estudos e Práticas das Artes pela UQAM | Université du Québec à Montréal em co-tutela com a USP. Além de ter um trabalho artístico consistente e reconhecido internacionalmente, ele já colaborou como pesquisador no Centro de Memória do Circo (SP).