Em busca do Circo perdido

Maria Eugênia de Menezes

“Bocas, quantas bocas / A cidade vai abrir / Pruma alma de artista se entregar / Palmas pro artista confundir / Pernas pro artista tropeçar / Voar, fugir / Como o rei dos ciganos / Quando junta os cobres seus / Chorar, ganir / Como o mais pobre dos pobres / Dos pobres dos plebeus / Ir deixando a pele em cada palco / E não olhar pra trás / E nem jamais / Jamais dizer / Adeus”.

Chico Buarque, Na carreira.

É fácil apreender o significado da palavra memória, mas difícil circunscrever o termo a uma definição única e completa. Durante muito tempo, acreditou-se em uma espécie de memória pura, como se o cérebro humano funcionasse como um repositório de lembranças que podem ser acessadas de tempos em tempos. Foi com a publicação de Matéria e memória, em 1896, que Henri Bergson viria a abrir brechas nessa visão cristalizada. No lugar da ideia de que o ato de lembrar está reduzido a uma dimensão física, Bergson revolucionava ao dar uma dimensão espiritual da memória. A memória, sugeria ele, não se coloca como uma verdade inexorável a ser resgatada. Antes, é um processo de atualização das lembranças. Como se cada reminiscência fosse o resultado de um movimento, um ziguezague no tempo, que retira uma imagem do passado e a encarna no presente.

Parcela considerável do impacto do espetáculo Picolla memória se deve à maneira como a companhia consegue lidar com o lugar afetivo que o circo tem para gerações de brasileiros. Ao falar de tradições, ao evocar lonas coloridas e picadeiros imensos cobertos de serragem, o grupo Piccolo Circo articula uma dimensão coletiva a muitas histórias e recordações pessoais. Assim, as narrativas de quem está no palco começam, gradativa e silenciosamente, a conversar com as lembranças de cada espectador no escuro da plateia. Uma roda do tempo se põe a girar. Surge, para cada um, a imagem do primeiro palhaço, a primeira visão das luzes salpicando o céu, o rufar dos tambores e aquele medo antigo, já quase esquecido, quando o acrobata se lança no ar sem rede de proteção.

O espetáculo, que faz sua estréia no Festival Internacional Sesc de Circo, divide-se, claramente, em duas partes. Na primeira, um mestre de cerimônias vem falar das tradições do circo por meio de biografias pessoais – ficcionais e reais – e também pelo regaste do circo brasileiro do último século. Há fragilidades nessa dramaturgia, assinada por Nereu Afonso, que por vezes pesa a mão no seu apelo sentimental e em suas pretensões nostálgicas. Nem sempre é preciso verbalizar o que já está dito. Mas sobram elementos em cena e imaginação aos intérpretes para compensar o que falta ao texto.

Em cena, uma trupe ensaia uma peça. Toda essa parte do espetáculo merece o cuidado de Fernando Neves, diretor reconhecido por seu trabalho com o grupo Os Fofos Encenam. Filho de uma família de portugueses que emigrou para o país para trabalhar no circo, Neves conduz uma longa pesquisa sobre a tradição do circo-teatro entre nós. A vertente, que teve sua força maior entre o final do século 19 e os anos 1960, propunha a entrada do drama nas lonas circenses. A proposição narra esse encontro da comédia com os folhetins românticos, a mistura de números cômicos com a farsa e o melodrama, a criação de personagens tão marcantes em nossa trajetória cênica quanto a mocinha inocente, o pai severo e o galã impetuoso.

O crescimento urbano e a especulação imobiliária expulsaram os circos de lona das grandes cidades. Nas duas últimas décadas, essa arte deixa de fazer parte do cotidiano da maioria da população, ainda que permaneça muito viva como parte do inconsciente coletivo. A segunda metade de Piccola memória promove o encontro entre esse circo do passado e sua potência no presente. Convoca-se uma seleção de variedades circenses nessa parte do espetáculo. A beleza das acrobacias aéreas no trapézio, a elegância da bailarina equilibrista, os saltos mortais. É um passeio nostálgico, mas não só. Uma vivacidade extrema se faz evidente, sobretudo, na arte da palhaçaria. Uma irreverente dupla de clowns, dirigida por Fernando Sampaio, torna tudo vivo. É uma força do corpo cômico que se impõe. Ali, as convenções temporais se apagam. Estão juntos memória e invenção, o sabor do passado e as possibilidades do contemporâneo.