Circos do eu, Circos do mundo

Kil Abreu

Em Sobrevoltas, jovens artistas circenses fazem perguntas ao ofício

Em um dos seus estudos sobre o teatro moderno, o teórico e dramaturgo francês Jean-Pierre Sarrazac projeta, entre outras, uma recorrência que se estende à cena contemporânea: a tendência à rapsódia e o gosto pelo depoimento íntimo. Solidifica-se e difunde-se, assim, o que ele identifica como uma épica às avessas –  narrativas que no oposto do esquema brechtiano não querem partir do problema dos enfrentamentos coletivos e sim das questões singulares do sujeito. Épicas íntimas, em que os assuntos de interesse comum são vocalizados através do relato de experiências singulares. A ideia de rapsódia tem a ver com isso, com o contar, e também com formas cênicas livres, “patchworks formais” que já não se preocupam em alcançar a fugidia totalidade do real e, sim, apresenta-lo francamente a partir das suas fraturas.

Sobrevoltas, o trabalho que reúne as companhias Circo Enxame e Circo Mínimo, alinha-se, nas linguagens e recursos circenses, a essas narrativas íntimas e ao gosto pela montagem estruturada em fragmentos (neste segundo aspecto, mais que no primeiro, está já de acordo com a tradição do picadeiro). Quanto a fazer da cena o espaço para a confissão pessoal, é proposta que, como no teatro, se coloca no fio da navalha. É neste lugar que temos visto muito da cena contemporânea naufragar. A despeito da enorme variedade de experiências artísticas que abraçam a fala pessoal, não ficcional, como matéria cênica, não é sempre que o relato íntimo consegue alcançar o ponto necessário da teatralidade para escapar do ensimesmamento e agregar o interesse geral.

Neste espetáculo, concebido pelo núcleo que atua e dirigido com a audição necessária pelo veterano Rodrigo Matheus, felizmente as falas íntimas conseguem, de par com as ações, estabelecer um campo comum que garante não só a sustentação das cenas como a empatia diante do que é dito, vivido, demonstrado. Provavelmente porque projetam, das impressões destes artistas diante do ofício, questões políticas e existenciais que se apresentam como se fossem nossas próprias questões. Ainda que não sejamos do circo. É o procedimento elementar, mas nem sempre observado, para uma dramaturgia que, mesmo amparada em circunstâncias particulares, concentra nos seus argumentos discussões que tendem a fazer apelos de alcance mais amplo.

Mais do que a pergunta lançada pelo grupo (o que é o circo hoje?), o que prevalece é a maneira como ela repercute em nós: o que é a vida, hoje, vista a partir do olhar juvenil dos que enfrentam o encontro com o picadeiro-mundo? Pois, por exemplo, o que é a fala do (excelente) percussionista Rubens de Oliveira, quando reclama sobre o não pertencimento ao “mercado”, senão a tradução precisa da ambição da maioria, artistas ou não, de conseguir circular em uma sociedade onde circular é quase tudo? Para dizer de outra forma, com o sociólogo Francisco de Oliveira: no mundo da mercadoria, o problema para nós não é ser mercadoria. O problema é não conseguir sê-lo. Diante da época, é uma expectativa justa.

Assim, as sequências do espetáculo alternam depoimentos falados e depoimentos em atos físico-estéticos, cada artista em seu aparelho ou habilidade especial, o verbo iluminando a ação e vice-versa, mas quase nunca de maneira ilustrativa: da história de convivência com a doença ao encontro com o circo (Giulia Destro, que faz uma comovente, dramática intervenção na corda indiana). Das passagens pelos cruzamentos e faróis da vida ao domínio virtuoso dos malabares (Renato Mescoki). Da pergunta sobre a própria vocação ao passeio sobre a corda bamba (Jan Leca). Os fragmentos de intimidade encontram na cena lugar de expressão que totaliza (remetendo novamente a Sarrazac) uma espécie de “circo do eu” que por sua vez projeta para nós o “circo do mundo”. E lá estamos, de alguma maneira, bem pertencidos.

Sobrevoltas seriam voltas umas em torno das outras? Seriam voltas sobre outras? Seriam visões de cima, do alto? Quaisquer destas leituras têm lugar em um diálogo poético com a montagem.  E nos deixam no espaço aberto, aventuroso, de uma estimulante expectativa. De que a vida seja, de todo modo, um lugar de liberdade para o desejo e a vocação que cada um quiser apontar.